Tanto quanto importante, bonita e complexa, essa temática exige vários olhares e abordagens. A título de contribuir para um melhor embasamento da discussão referente à produção e gestão dessas plantas, começaremos por contextualizar no tempo e espaço, um pouco da trajetória percorrida.
O uso de Plantas Medicinais acompanha a própria história da humanidade. Seja na forma in natura - verde ou seca, como através de produtos e subprodutos derivados das mesmas. Tanto a nível caseiro, escolar, comunitário ou comercial Além das derivações, na forma de condimentos de diversos alimentos e bebidas, como na condição de plantas aromatizadoras de ambientes, perfumes, cremes, cosméticos em geral, visto que dependendo da planta e da finalidade de uso, uma mesma espécie pode ser medicinal, condimentar e/ou aromática.
Um marco histórico em termos de reconhecimento da importância do uso das mesmas, pode ser considerado a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, organizada pela OMS/ONU, em 1978, na cidade de Alma-Ata, localizada na então URSS. Nela foram discutidas medidas que buscavam promover a saúde de todos os povos do mundo. As propostas desta Conferência foram vistas com bons olhos por grande parte da comunidade científica mundial. A partir deste evento o Brasil iniciou a realização de algumas Atividades Integradas de Saúde - AIS, na tentativa de poder cumprir os compromissos lá assumidos.
Com o passar do tempo, foram modificando-se tanto o entendimento do binômio saúde-doença, quanto da própria prática médica, considerando-se saudável o organismo que mantém em equilíbrio os fatores individual, social e ecológico. Neste contexto, a recomendação daquela Conferência de Alma-Ata aos países membros para que pesquisem, cultivem e conservem suas plantas, com vistas a usufruir das potencialidades que as mesmas apresentem, mormente na utilização na atenção primária à saúde, vão propiciar um novo olhar sobre as plantas, a saúde e o meio ambiente.
A partir desse evento, muitos outros foram sendo realizados no território nacional, por diferentes estados e municípios, tanto na esfera pública, privada, comunitária ou pela conjugação de esforços de todas juntas. Foram inúmeros seminários, congressos, jornadas, cursos, palestras, abrangendo a esfera da educação, saúde, agricultura, economia, sociologia, cultura, artes, engenharia, política, ecologia, etc; ressaltando a característica interdisciplinar, transversal, sócio-ambiental que este campo do conhecimento e ação demanda, salientando a importância de um agir cooperativo, para o bem estar de animais, plantas e seres humanos. Ainda, a busca de sintonia dos saberes tradicionais e acadêmicos ou dos conhecimentos populares e científicos, visando o bem estar de todo o corpo sócio-ambiental.
A partir daí, podemos salientar inúmeras e valiosas iniciativas de norte a sul do Brasil, no que tange a relação com as plantas medicinais, seu cultivo e o uso.
Como ilustração podemos citar:
- na região norte, a utilização das florestas, também, como rica fonte de produtos não madeireiros, onde se inserem inúmeras dessas plantas, com manejo racional e fonte de geração de trabalho e renda;
- na região centro-oeste, a implantação do Hospital de Medicina Alternativa, atuando desde o cultivo, formulação, prescrição e fornecimento de fitoterápicos, e pelo SUS, envolvendo profissionais das áreas agrícolas e de saúde;
- na região nordeste, entre muitos outros Projetos e Programas, salientamos o Farmácias Vivas, no Ceará, salientando a importância da integração das atividades universitárias e comunitárias, integrando pesquisa, extensão, educação, com promoção humana, social e ambiental;
- na região sudeste, as ações de programas municipais de saúde com atendimento à população nos postos de saúde pública, destacando-se, entre outros, o das prefeituras de Vitória-ES; do Rio de Janeiro-RJ; do meio acadêmico e produtivo em São Paulo, com o Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da UNICAMP;
- na região sul, o Programa Verde-Saúde-Curitiba/Paraná, reunindo Secretarias Municipais da Saúde, Assistência Social, Agricultura e Emater, conjugando produção agrícola, agroindustrial e de fitoterápicos com promoção da saúde e cidadania, através do laborterapia;
Santa Catarina destacando-se na pesquisa e ação social, destacando-se a Epagri, Universidades, Prefeituras, Produtores.
E, o Rio Grande do Sul, onde as várias iniciativas de pesquisa, ensino, extensão, produção e ação social e comunitária, foram aglutinadas mais recentemente no chamado Fórum pela Vida – Projeto Plantas Vivas (1998 - ...), com suporte fundamental da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa e nas Reuniões Técnicas Estadual das Plantas Bioativas (medicinais, condimentares, aromáticas, tóxicas).
Estas Reuniões, envolvendo instituições e profissionais da pesquisa, extensão, ensino, produção e fomento, como Embrapa, Universidades, Fepagro, Emater, Escolas Técnicas, Produtores, Governos – Municipais, Estadual e Federal, já ocorreram em cinco edições anuais de 2006 a 2010, respectivamente nos municípios de Porto Alegre – Emater (2006/2008), Pelotas – Embrapa (2007), Cachoeirinha – Prefeitura (2009) e Nova Petrópolis – Prefeitura (2010).
Toda esta caminhada e pressão social assinalou outro marco histórico, com a construção e aprovação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema único de Saúde (Portaria GM nº 971 de 03/05/2006) e da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (Decreto Presidencial 5813, de 22/06/2006). E, ainda nesse ano a publicação Plantas Medicinais – Orientações Gerais para o Cultivo – I – Boas Práticas Agrícolas (BPA) de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo. Brasília, DF, outubro de 2006.
Assim, com essas políticas e publicações, busca-se contemplar toda a cadeia ou processo produtivo das Plantas Medicinais. O que significa que deverá ter produção com quantidade, qualidade e regularidade para abastecer a necessidade demandada. Bem como o aprender e valorizar o trabalho em rede, envolvendo agricultura, indústria, comércio, órgãos de ensino, pesquisa, extensão e fomento.
Portanto, fica justificada a necessidade de se trabalhar a PRODUÇÃO E GESTÃO EM PLANTAS MEDICINAIS, levando-se em conta todo este contexto.
• Prof. Eng. Agrônomo Mestre em Agronomia (Fitotecnia)
• Instrutor do SENAR/RS e criador do Curso: Plantas Medicinais, Condimentares e Aromáticas em 1993.
• Consultor em Produção Agrícola nesta Área.
Artigo publicado na revista Letras da Terra, Ano VIII - Nº 16 - DEZ/2008, da Associação Gaúcha dos Professores Técnicos do Ensino Agrícola – AGPTEA. Agora revisto e atualizado.
O uso de Plantas Medicinais acompanha a própria história da humanidade. Seja na forma in natura - verde ou seca, como através de produtos e subprodutos derivados das mesmas. Tanto a nível caseiro, escolar, comunitário ou comercial Além das derivações, na forma de condimentos de diversos alimentos e bebidas, como na condição de plantas aromatizadoras de ambientes, perfumes, cremes, cosméticos em geral, visto que dependendo da planta e da finalidade de uso, uma mesma espécie pode ser medicinal, condimentar e/ou aromática.
Um marco histórico em termos de reconhecimento da importância do uso das mesmas, pode ser considerado a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, organizada pela OMS/ONU, em 1978, na cidade de Alma-Ata, localizada na então URSS. Nela foram discutidas medidas que buscavam promover a saúde de todos os povos do mundo. As propostas desta Conferência foram vistas com bons olhos por grande parte da comunidade científica mundial. A partir deste evento o Brasil iniciou a realização de algumas Atividades Integradas de Saúde - AIS, na tentativa de poder cumprir os compromissos lá assumidos.
Com o passar do tempo, foram modificando-se tanto o entendimento do binômio saúde-doença, quanto da própria prática médica, considerando-se saudável o organismo que mantém em equilíbrio os fatores individual, social e ecológico. Neste contexto, a recomendação daquela Conferência de Alma-Ata aos países membros para que pesquisem, cultivem e conservem suas plantas, com vistas a usufruir das potencialidades que as mesmas apresentem, mormente na utilização na atenção primária à saúde, vão propiciar um novo olhar sobre as plantas, a saúde e o meio ambiente.
A partir desse evento, muitos outros foram sendo realizados no território nacional, por diferentes estados e municípios, tanto na esfera pública, privada, comunitária ou pela conjugação de esforços de todas juntas. Foram inúmeros seminários, congressos, jornadas, cursos, palestras, abrangendo a esfera da educação, saúde, agricultura, economia, sociologia, cultura, artes, engenharia, política, ecologia, etc; ressaltando a característica interdisciplinar, transversal, sócio-ambiental que este campo do conhecimento e ação demanda, salientando a importância de um agir cooperativo, para o bem estar de animais, plantas e seres humanos. Ainda, a busca de sintonia dos saberes tradicionais e acadêmicos ou dos conhecimentos populares e científicos, visando o bem estar de todo o corpo sócio-ambiental.
A partir daí, podemos salientar inúmeras e valiosas iniciativas de norte a sul do Brasil, no que tange a relação com as plantas medicinais, seu cultivo e o uso.
Como ilustração podemos citar:
- na região norte, a utilização das florestas, também, como rica fonte de produtos não madeireiros, onde se inserem inúmeras dessas plantas, com manejo racional e fonte de geração de trabalho e renda;
- na região centro-oeste, a implantação do Hospital de Medicina Alternativa, atuando desde o cultivo, formulação, prescrição e fornecimento de fitoterápicos, e pelo SUS, envolvendo profissionais das áreas agrícolas e de saúde;
- na região nordeste, entre muitos outros Projetos e Programas, salientamos o Farmácias Vivas, no Ceará, salientando a importância da integração das atividades universitárias e comunitárias, integrando pesquisa, extensão, educação, com promoção humana, social e ambiental;
- na região sudeste, as ações de programas municipais de saúde com atendimento à população nos postos de saúde pública, destacando-se, entre outros, o das prefeituras de Vitória-ES; do Rio de Janeiro-RJ; do meio acadêmico e produtivo em São Paulo, com o Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da UNICAMP;
- na região sul, o Programa Verde-Saúde-Curitiba/Paraná, reunindo Secretarias Municipais da Saúde, Assistência Social, Agricultura e Emater, conjugando produção agrícola, agroindustrial e de fitoterápicos com promoção da saúde e cidadania, através do laborterapia;
Santa Catarina destacando-se na pesquisa e ação social, destacando-se a Epagri, Universidades, Prefeituras, Produtores.
E, o Rio Grande do Sul, onde as várias iniciativas de pesquisa, ensino, extensão, produção e ação social e comunitária, foram aglutinadas mais recentemente no chamado Fórum pela Vida – Projeto Plantas Vivas (1998 - ...), com suporte fundamental da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa e nas Reuniões Técnicas Estadual das Plantas Bioativas (medicinais, condimentares, aromáticas, tóxicas).
Estas Reuniões, envolvendo instituições e profissionais da pesquisa, extensão, ensino, produção e fomento, como Embrapa, Universidades, Fepagro, Emater, Escolas Técnicas, Produtores, Governos – Municipais, Estadual e Federal, já ocorreram em cinco edições anuais de 2006 a 2010, respectivamente nos municípios de Porto Alegre – Emater (2006/2008), Pelotas – Embrapa (2007), Cachoeirinha – Prefeitura (2009) e Nova Petrópolis – Prefeitura (2010).
Toda esta caminhada e pressão social assinalou outro marco histórico, com a construção e aprovação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema único de Saúde (Portaria GM nº 971 de 03/05/2006) e da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (Decreto Presidencial 5813, de 22/06/2006). E, ainda nesse ano a publicação Plantas Medicinais – Orientações Gerais para o Cultivo – I – Boas Práticas Agrícolas (BPA) de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo. Brasília, DF, outubro de 2006.
Assim, com essas políticas e publicações, busca-se contemplar toda a cadeia ou processo produtivo das Plantas Medicinais. O que significa que deverá ter produção com quantidade, qualidade e regularidade para abastecer a necessidade demandada. Bem como o aprender e valorizar o trabalho em rede, envolvendo agricultura, indústria, comércio, órgãos de ensino, pesquisa, extensão e fomento.
Portanto, fica justificada a necessidade de se trabalhar a PRODUÇÃO E GESTÃO EM PLANTAS MEDICINAIS, levando-se em conta todo este contexto.
• Prof. Eng. Agrônomo Mestre em Agronomia (Fitotecnia)
• Instrutor do SENAR/RS e criador do Curso: Plantas Medicinais, Condimentares e Aromáticas em 1993.
• Consultor em Produção Agrícola nesta Área.
Artigo publicado na revista Letras da Terra, Ano VIII - Nº 16 - DEZ/2008, da Associação Gaúcha dos Professores Técnicos do Ensino Agrícola – AGPTEA. Agora revisto e atualizado.
Walmir Gambôa Schinoff *